Aquele ônibus capotou diversas vezes. E pude assistir tudo. Era como se eu fosse uma de suas vítimas. Espere. Não foi assim que começou.
Me lembro da majestosa sensação. Podia realmente flutuar, mas desta vez foi diferente. Já não carregava comigo aquele grande temor. O Ir e vir se tornou prazeroso para mim. Ia firme mas sempre cauteloso. E uma das sensações mais sublimes foi poder estar entre duas gigantescas montanhas rodeadas de moradias e por sua vez, habitantes.
Não lembro dela. Nem seu nome. E, infelizmente, seu rosto. Não o pude decorar. Talvez seja este o limite. Talvez avançar não seria tão prazeroso como o desconhecido.
Poucas lembranças. O suficiente para saber que estive em transe. E em grande paz. Por enquanto.
O vi capotar com grandes detalhes. Me encontrava em outro coletivo e fui o primeiro a tomar a iniciativa de ir até o local do acidente. Logo se encheu de curiosos. Pude ver, muito real, corpos espalhados já sem vida. Mas continuei procurando. E, de repente, eu encontrei uma mulher, com pele branca, cabelos pretos encaracolados e com um vestido branco que me muito me chamava a atenção. E enquanto todos passavam por cima dela como se nada mais pudesse ser feito, talvez por causa do vermelho sangue em seu vestido, eu não conseguia enxergá-la sem vida. Estiquei meu braço e ela o agarrou e finalmente eu pude ajudá-la.
E me ajudei também. E consegui ir e vir novamente.

2 comentários:
Gostei do texto. E ele me fez lembrar do que o grande filósofo Mardim diria ao observar o Busú capotar: "Porra!!!".
Parecia morta, morta e tão feliz.
Gostei.
Postar um comentário